Sem-terra mas com-onça...

 

 Esta quarta-feira foi dia da caça no Pontal do Paranapanema. O MST, que há onze anos sitiou com assentados o Parque Estadual do Morro do Diabo, fechou a rodovia Arlindo Bétio para protestar contra o atropelamento de uma onça. A estrada corta pelo meio a última reserva florestal que ficou de pé na região, depois que o governo paulista entregou aquelas terras à mais selvagem grilagem nos anos 50. Ali, criou um atalho para a extinção das espécies que sobraram lá dentro.

 A onça atropelada era uma das 12 sobreviventes do Morro do Diabo. Vivia com um colar no pescoço. Todos os seus passos eram monitorados pelos pesquisadores do Instituto Ipê, uma ONG que pretende transformar essas trilhas em roteiros naturais de reflorestamento. Além de raro, tratava-se portanto de um bicho ocupado com um trabalho relevante. Teve o mesmo fim de pelo menos 300 animais mortos na travessia do asfalto em cerca de dez anos - entre eles, oito onças pintadas, cinco onças pardas, 42 antas, 23 veados, 108 cachorros do mato e 42 quatis.

 Durante a década de 1990, enquanto a estrada fazia esse estrago, instalaram-se na região os sem-terra. Acuados pelos fazendeiros na borda do parque, eles caçavam e tiravam madeira no Morro do Diabo, onde o biólogo Cláudio Pádua, criador do Ipê, pastoreia há mais de uma década os micos-leões-da-cara-preta, únicos da espécie no país. Pádua e as lideranças do MST tinham os melhores motivos para brigar e brigaram bastante. Mas acabaram se entendendo. Há dois anos, em vez de cortar árvores na reserva, os assentados arborizam o fundo de seus lotes com mudas doadas pelo Ipê.

 Foi esse trabalho de catequese que, num país onde o presidente Fernando Henrique Cardoso chama de "descuidos do passado" os problemas ambientais do presente, levou os sem-terra a ocupar a rodovia, pondo as técnicas tradicionais do movimento a serviço de uma causa que nunca esteve entre suas prioridades políticas. Quando chegou ao acampamento a notícia de que havia morrido mais uma onça na SP-613, um líder local chamado Zé Litro sacou de improviso uma pérola do sincretismo ambiental: "Onça também é sem-terra. Como a gente, está atrás de lugar para viver".

 Com o protesto, eles quiseram arrancar do Departamento de Estradas de Rodagem providências que deveriam ser automáticas numa estrada cada vez mais trafegada, que liga Mato grosso do Sul ao oeste de São Paulo através de 37 mil hectares de floresta contínua e legalmente intocável.

 Coisas banais, como redutores de velocidade no interior do parque para os motoristas no interior do parque e passagens subterrâneas para os bichos.

 O DER pode até fingir que não ouviu as reivindicações. Mas desta vez as autoridades de Teodoro Sampaio, uma cidade que roça no Morro do Diabo, aderiram a um bloqueio do MST. Lá estavam, na companhia de Zé Rainha, o vice-prefeito e o presidente da Câmara de Vereadores, por exemplo. O promotor Fernando Cresti fez até discurso sobre as medidas judiciais que se pode tomar contra a estrada assassina. "Quem imaginaria isso dez anos atrás?", comenta Cláudio Pádua, um ex-executivo que largou a presidência de uma empresa aos 30 anos para estudar biologia. Neto do político mineiro Benedito Valadares, ele tem um dos currículos mais exóticos do ambientalismo brasileiro. Era quarentão quando voltou da Flórida com um título de PhD para morar numa cabana no Morro do Diabo, última trincheira da mata atlântica que meio século atrás forrava toda a fronteira de São Paulo com o Paraná, até o governador Adhemar de Barros liquidasse uma imensa reserva estadual para povoá-la com o gado dos grileiros. É por essas e outras que o Pontal do Paranapanema é até hoje um front conturbado da luta pela terra no Brasil. Mas, como se viu esta semana, os "descuidos do passado", não criam necessariamente as fatalidades do presente.

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 Fonte: "No." http://www.no.com.br - Coluna de Marcio Moreira - 06.Jun.2001

 

Enviado à lista por Rafael Illenseer