(João Ricardo – João Apolinário)
Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra- mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera
Antes
de mais nada...
Este
papel nas suas mãos representa a última etapa de um processo que se iniciou
no final de 1998 quando, em Porto Alegre, um grupo de estudantes resolveu
realizar o vigésimo ENEB na Unicamp. Muitas coisas aconteceram que não estarão
aqui, e muitos pontos de vista também não foram expressos neste documento.
Ele foi construído e costurado a 101 mãos, assim como todo o resto, neste
maravilhoso, doloroso e misterioso processo chamado trabalho coletivo.
O
que nos motivou a organizar este encontro foi o vislumbre, lá ao longe, de algo novo (ou talvez mais antigo) na forma
de se encarar o movimento estudantil e a prática política em si. Vislumbramos
um mundo onde nós tivéssemos feito as coisas assim como achamos que devem
ser feitas, onde os princípios podiam ser claramente vistos nos meios, e onde
os fins pudessem ser alcançados. Tentamos, com todos nossos neurônios, hormônios,
músculos e sangue, fazer um encontro que também caminhasse, como muitos outros,
em direção a este mundo. Não sei se conseguimos, mas continuamos tentando,
dia após dia, nos muitos aspectos de nossas vidas.
Em
relação ao movimento estudantil, palavra já bem desgastada, este “algo novo”
se refere tanto aos meios quanto aos fins. Afinal, bons princípios se encontra
em qualquer esquina. Talvez todos eles se sintetizem num único valor, que
vai no sentido de mostrar o quanto aquilo que chamamos de “eu” pode ser bem
menos restrito do que estamos acostumados. O respeito
ao outro, seja ele semelhante, diferente ou desconhecido. Seja pessoa,
movimento, filosofia, instituição ou forma de conhecimento. E resistência
às forças que desrespeitam este princípio.
Buscando
coerência nos meios, procuramos
realizar atividades realmente participativas: poucas palestras, discussões
com dinâmicas, construção de murais, muita cultura, tudo com a idéia de fazer
daquele espaço um espaço de encontro. De troca espontânea. Separamos o lixo,
utilizamos canecas ao invés de descartáveis, plantamos mudas, e decidimos
coletivamente sobre cada novo dia.
Em
relação aos fins, é ainda mais difícil saber para onde caminhar, pois o mundo
referido acima ainda está muito longe, e temos que escolher fins intermediários que nos ajudem a chegar até ele. Além
disto, como saber o fim de algo que ainda vai ser construído? Se os fins forem
as deliberações dos estudantes de biologia do Brasil, foram feitos documentos,
seja lá o que isto signifique. É difícil avaliar o que realmente foi feito,
e aonde cada coisa teve seu efeito. Mas de uma maneira geral, de todos os
incontáveis objetivos que vislumbrávamos para este ENEB, talvez um tenha sido
plenamente atingido. O de abrirmos nossos corações e mentes para o outro,
e nos sentirmos profundamente tocados e transformados.
Por que o tema?
Um
tema requer uma escolha, um certo recorte da realidade. Ele deve ser importante
para todos os participantes, mas para o encontro ser legítimo, ele deve ter
a nossa cara. Então olhamos para nós mesmos. E o que enxergamos foi a Unicamp,
instituição de pesquisa por natureza, uma universidade onde se produz conhecimento
em tal velocidade que pouco se sabe para onde vai tudo isto.
Mas
a questão “O que fazer com o conhecimento?”
vai além da quase ilusória discussão entre ciência básica e aplicada. Ela
reflete um momento histórico em que cada vez mais se sabe coisas, e cada vez
mais pessoas deixam de ser tratadas como pessoas. Estamos percebendo que conhecimento
não é sinônimo de sabedoria, ou de justiça.
Sendo
assim, quando escolhemos nosso objeto de pesquisa ou os conceitos a serem
ensinados para nossos alunos, deveremos ter sempre em mente que o conhecimento
não tem uma finalidade em si. Ele é mais um meio de se chegar em algum lugar.
Pode servir tanto à manutenção do poder, como parece ser mais espontâneo,
ou pode contribuir para a transformação das relações pouco equilibradas e
sustentáveis que temos criado ultimamente neste pequeno planeta azul.
O tema “O que fazer com o conhecimento?” refletiu e reflete
nossos anseios diante da formação essencialmente acadêmica oferecida na maior
parte dos cursos. O que temos visto senão “conhecimento” produzido para “conhecedores”?
Será que este é o papel da universidade? Será que a Universidade está articulada
suficientemente com a sociedade para responder suas necessidades?
O desenrolar do ENEB pode ser concebido ao que chamamos
de corpograma (veja o desenho). O corpograma é constituído de três principais
momentos que também estarão permeando o nosso relato: a cabeça, o coração
e os membros. A cabeça correspondeu aos primeiros quatro dias do ENEB, quando
estivemos expondo o que estava acontecendo em cada universidade em forma de
murais, discutindo temas de âmbito geral (GD – grupos de discussão) ou mais
específicos (TE – temas Específicos) e desenvolvendo outras formas de expressão
(oficinas). O coração foi o momento das vivências, quando os participantes
deixaram as fronteiras da universidade e foram sentir diferentes formas de
ver o mundo. Finalmente, o terceiro momento foi chamado de membros. A idéia
deste último era articular os participantes para andar com as próprias pernas,
mexer os braços e começar a atuar e, afinal, o que fazer com o conhecimento?. Esta parte incluiu a Conversa Final, a Assembléia
Nacional dos Estudantes de Biologia, a Ocupação Verde e, se tivessem acontecido,
a Ocupação Cultural e a Agenda Local.

A CABEÇA
Nesse
primeiro momento do encontro, as atividades possibilitaram a reflexão. a oportunidade
de se pensar na companhia de novas
pessoas, cada qual dividindo suas experiências... Imaginamos para essa fase
do encontro, o “transbordamento” de idéias ligadas tanto ao tema “o que fazer
com o conhecimento?” quanto às experiências trazidas pelas diferentes pessoas
e escolas. Os grupos de discussão, o mural e a Palestra com o Professor Roberto
Romano (que versou sobre os atuais rumos da Universidade) serviriam como um
alimento que permearia as demais fases do ENEB, a afinação dos instrumentos,
fomentando discussões e reflexões. Embora saibamos que há pessoas que podem
falar maravilhosamente sobre o tema escolhido para este ENEB, propositalmente
não programamos mais palestras, pois encaramos o ENEB como um espaço para
os estudantes de Biologia construírem conhecimento, um encontro para troca...
Cada um trazendo suas leituras, trabalhos desenvolvidos ou conhecidos, palestras
assistidas em outras ocasiões, enfim, suas próprias vivências! Por isso montamos
um suporte, que consistiu nos grupos de discussão, para que as pessoas pudessem
expressar suas opiniões e, de alguma forma, sistematizá-las para expor na
roda para todos participantes do ENEB à noite, na forma oral ou também como
mural. Os grupos de discussão contaram com enriquecedores, pessoas com uma
certa experiência relacionada ao tema do grupo que poderia trazer novos elementos,
problematizações e questionamentos, tornando o debate mais fecundo. Não quisemos
também sobrecarregar os participantes de atividades para que estes pudessem
fazer outra coisa fundalmentalmente importante: se encontrar! Nas noites aconteceram
as grandes rodas debaixo da lona de circo, que foram momentos de conversa
entre todos os participantes para falar como foi o dia, tentarmos solucionar
alguns problemas organizacionais e, principalmente, avaliarmos o andamento
do ENEB.
O
número reduzido de participantes do XX ENEB fez-nos alterar algumas coisas
na programação. Tínhamos combinado 5 grupos de discussão: Movimento e Envolvimento
Estudantil; Educação, Cidadania e Meio Ambiente; Conservação; Desenvolvimento
Sustentável; Pesquisa e Responsabilidade Social. Estavam previstas duas tardes
de discussão para cada grupo, mas não havia gente o suficiente para isso.
Então para mantermos a existência dos 5 grupos e o nosso acordo com os convidados
para enriquecer os debates, reduzimos para uma tarde a duração de cada grupo.
Infelizmente, pois muitas discussões necessitariam de mais tempo para engrenar
ou aprofundar... Além disso, houve algumas situações pouco agradáveis, como
o atraso dos participantes aos grupos, reduzindo ainda mais o tempo das discussões
ou a presença de apenas 3 pessoas ao grupo de Conservação, enriquecido pelo
Professor Carlos Joly – da Unicamp.
Na noite após terminarem os grupos de discussão e antes
de irmos para as vivências, houve uma roda para a partilha das discussões
que aconteceram nos diferentes grupos, para que – na medida do possível –
todos pudessem ir para as vivências escolhidas tendo uma noção geral dos temas
que permearam a “cabeça”do ENEB.
O
Mural
No XIX ENEB, em Porto Alegre, notamos que um espaço bastante extenso dos
grupos de discussão foi usado para os participantes relatarem aspectos de
suas realidades universitárias, municipais, estaduais (etc...) específicas.
Tanto para “chorarem as pitangas” quanto para relatarem experiências bem-sucedidas...
Pensando na dinâmica do XX ENEB, vimos que a existência desse espaço
é um objetivo primordial do ENEB – para criticar o reitor que foi carrasco,
contar os caminhos que nos aproximam da privatização, uma mata que vem sendo
destruída, falar da situação de Bombinhas, da atuação de seu Centro/Diretório
Acadêmico...... Para o desenvolver dos grupos de discussão, essa troca é mais
do que necessária, mas consideramos que não deveria acontecer dentro do espaço
destes grupos (isso não foi de forma nenhuma levado como um engessamento,
o que surgisse durante as discussões seria muito bem-vindo!) por um motivo
estritamente logístico de TEMPO. Então, tivemos a idéia de
trazermos a confecção de murais como uma atividade do ENEB – para que
cada escola, cada pessoa contasse o que quisesse – e o produto seria matéria-prima
dos grupos de discussão e também poderia haver alguma
experiência a ser levada para outros lugares. Deu certo! A maioria
das escolas usou esse espaço e passou o seu recado. Cada mural bonito que
foi feito, vocês precisavam ver (ou viram).... Mas fica uma pergunta: como
usar de uma maneira mais efetiva o mural como subsídio para os grupos de discussão?
Grupos
de discussão
Movimento e Envolvimento Estudantil
A escolha deste tema, com a palavra “envolvimento”, reflete as conversas
que tivemos antes do ENEB com o objetivo de estruturar a discussão. Não é
preciso um olhar científico aguçado para se perceber que as atividades extra-acadêmicas
em geral, embora sejam continuamente criadas e recriadas por pessoas empenhadas em um determinado fim,
parecem não interessar à grande maioria dos estudantes. Aí acabam não vingando
na grande maioria das vezes. O que se vê são os famosos “os mesmos de sempre”,
que de vez em quando crescem ou diminuem um pouco.
Sendo assim, entendemos que o problema central do movimento estudantil
de hoje é entender por que as pessoas
não estão participando. Por trás desta dúvida se encontram diversas contradições
e inconsistências, algumas das quais procuramos encontrar, sentir e socializar
durante à tarde de atividades descrita nestas poucas linhas.
Começamos com uma dinâmica que
simulava o movimento sincronizado.
As pessoas formaram duplas e receberam um cabo de vassoura, que representava
a interação. Enquanto a música tocava, cada um apoiava uma ponta do cabo na
palma da mão, e ia se movendo junto com o parceiro, sentindo a hora de avançar,
parar, recuar, rodar, enfim, realizando um movimento improvisado e sincronizado
o suficiente para que o cabo não caísse. Com o tempo, nós íamos juntando as
duplas, retirando os cabos e formando trios, quartetos, em que os integrantes
se moviam sincronizadamente com os cabos na palma da mão. Ao final da dinâmica
estavam todos unidos, espalhados embaixo da lona, e se movimentando o som
da música (no caso, “Tô” do Tom Zé).
Depois sentamos no chão, em roda, e conversamos um pouco sobre a “brincadeira”.
Comentamos o movimento corporal: “Você tem que sentir tudo na mão. A pressão, a direção, os diferentes
momentos. Não há como prever tudo. Você tem que sentir o que fazer ao mesmo tempo em que vai fazendo”. Ou então
“Quanto mais gente está no mesmo grupo,
mais difícil é para o movimento estar sincronizado. De dois você se movimenta
mais. Quando junta todo mundo fica embolado, aí todos percebem a necessidade
de se espalhar, dar mais espaço para o movimento dos outros”. Ou ainda
“Às vezes, se você não inventa nada, fica monótono.
O que salva é a música. Se não tivesse a música eu não gostaria de continuar
movimentando.”
Neste ponto, resolvemos trocar o termo “movimento corporal” para “movimento
estudantil”, e vimos que não havia tanta diferença assim. A impressão que
tivemos foi de que quando a discussão
começou, já havia tido tanta troca, que não houve aquela tensão inicial
cheia de idéias complementares que, por algum motivo, são tratadas como excludentes.
E que fazem a coisa ficar andando em círculos durante, no mínimo, a primeira
metade da discussão.
Aliás, o respeito à fala do outro
foi tão marcante que nem precisamos de nenhum tipo de “questão de ordem” ou
“mesa”. Pelas falas, se via que os participantes estavam realmente ouvindo
o que os outros diziam, de forma que houvesse como que seguindo uma certa
seqüência. Em alguns momentos, eu tinha a impressão de que as pessoas eram
como que neurônios diferentes de uma mesma pessoa, procurando seguir uma linha
coerente de pensamento, coletiva, sem muitas manifestações de vaidade exagerada.
É difícil, porém necessário, traduzir um pouco desta sensação de participar de um coletivo com maturidade
que permeou a conversa desta tarde.
Num certo momento, distribuímos três tarjetas e uma caneta para cada um,
e pedimos que respondessem três perguntas
da maneira mais sintética que pudessem (até umas 4 palavras). “O que te atrai
para o movimento estudantil?”, “O que te afasta do movimento estudantil?”
e “O que você faz quando se encontra nesta segunda situação?”. Assim, enquanto
a conversa ia rolando, as pessoas escreviam nas tarjetas, que logo eram colocadas
no mural, em três colunas, para dar uma visão geral do que estava acontecendo.
O maior fator de atração era, ainda bem, a vontade de resistir a essa “alguma
coisa” que parece pairar sobre nossas cabeças. Os amigos e estímulo de pessoas
“na ativa” também foram bem freqüentes. O trabalho coletivo, isto é, a ação
sincronizada de várias pessoas seguindo a um interesse comum – muitas vezes
diferente do individual – foi fator tanto de aproximação quanto repulsa ao
movimento.
Os maiores motivos de desgosto em relação às movimentações estudantis foram
a falta de “resultados práticos” (o que depende diretamente da escolha dos
objetivos), o “politizar catequizador” (veja abaixo), diferenças de interesses
e métodos, falta de tempo. Em relação à terceira pergunta, maioria das pessoas se afastava quando se sentia
numa dessas situações, muito poucos reagiam à situação no sentido de procurar
mudá-la. Ou geralmente tentava uma vez e, frente à aparentemente gigantesca
inércia, acabava procurando outro espaço para desenvolver suas próprias atividades.
O que acaba resultando nos diversos movimentos chamados “alternativos”, que
serão comentados mais abaixo.
Houve uma questão interessante em relação às chamadas lideranças (um termo não muito pluralista).
Por um lado, muitas pessoas se sentiam encorajadas a participar do movimento
devido ao estímulo, carisma ou trabalho destes tais “líderes”. Eles seriam
as pessoas mantinham a coisa funcionando. Por outro lado, a grande maioria
citou como um dos fatores de repulsa ao movimento a maneira com que estes
“líderes” conduziam a vontade da maioria de acordo com interesses individuais
ou mesmo externos.
Discutimos longamente sobre como encontrar este difícil equilíbrio, como
envolver as pessoas em questões que façam sentido para elas, sem a famosa
“catequização” dos bichos. Como contribuir
para o desenvolvimento de uma consciência crítica de verdade (não este pensamento
crítico “decorado” dos meios de comunicação) de si mesmo e de seus colegas.
E o mais difícil: como fazer esta consciência
se manifestar?
Existem maneiras práticas e maneiras filosóficas de se responder a esta
questão, todas já bastante conhecidas. Reparamos, no entanto, com a diversidade
que existia entre nós, que as respostas práticas variavam mais em cada caso,
enquanto que as concepções gerais, que norteavam cada diferente escolhas ou
métodos adotados por cada um, não variavam tanto.
Na prática, algumas soluções encontradas nas diferentes faculdades foram
apontadas. Muitas delas se voltam a complementar a formação acadêmica, não
só nos aspectos ditos políticos, mas em qualquer direção que o grupo deseje
tomar. Entendemos que este pode ser um primeiro passo no sentido de criar
esta “verdadeira” consciência: sair (metaforicamente, ou não) da sala de aula.
Principalmente para pessoas que ainda não tenham desenvolvido uma percepção
mais ampla e menos egocentrada da realidade (como geralmente é herdado da
“mentalidade adolescente”). Percepção segundo
qual tudo está ligado – de diferentes maneiras e intensidades – de
forma que os atos de cada um têm diversas conseqüências e causas no mundo
ao seu redor. Isto amplia o próprio conceito de “ego” , o mundo exterior passa
a ser mais importante, e isto pode inclusive nos estimular a participar mais
dele. Afinal, a política não é algo externo ao homem que tenha de ser forjado.
Muitos CA’s optam por tornar as discussões mais agradáveis, destituídas
do formato “reunião-pauta-mesa”, às vezes ao ar livre. Na UFRGS temos o exemplo
do “chimarrão-consciência”, reuniões periódicas em que um “enriquecedor” é
convidado para conduzir a discussão sobre um tema previamente escolhido. Da
Unicamp foi citado o grupo Afim, que também se reunia periodicamente para
discutir questões não abordadas em sala de aula, e foi crescendo cada vez
mais, com alunos de praticamente todos os institutos. Este grupo, que organizou
alguns fóruns, como a “semana Afim do mundo”, teve uma série de conseqüências
no movimento estudantil e nas pessoas envolvidas.
No plano filosófico, chegamos à conclusão de que existem alguns princípios
básicos comuns que dão origem aos movimentos citados, e aos muitos que não
o estão.
Há uma importante contradição inerente à ação política, que foi inclusive
refletida nestes parágrafos: como conseguir criar uma certa concepção sólida
da realidade, segundo a qual você acredita que as coisas “funcionem”, incentivar
as pessoas a criarem as suas próprias (rejeitando aquelas artificiais, como
no “consenso fabricado” de Noam Chomsky), mas não influenciá-las em demasiado
em seu próprio caminho? Esta é uma daquelas perguntas que não se responde,
mas que o simples fato de você estar sempre com elas em mente durante as atividades
e discursos coletivos poderá fazer uma grande diferença.
Durante toda a conversa foi se delineando uma dicotomia que consideramos
retrato significativo do movimento estudantil de hoje. As formas institucionais
de se organizar, em contraponto às formas mais independentes, ou alternativas.
De início, houve uma certa relutância em se compreender a importância do
movimento institucionalizado, tais seus vícios, formatos burocráticos mais
familiares a qualquer outro do que a um estudante recém-chegado.
O tema escolhido dá margem para um monte de discussões possíveis, partindo-se
do princípio que para todos os presentes a relação entre meio ambiente, cidadania
e educação se dá de formas bastante diferentes, ou seja, havia diversas expectativas
distintas para o debate, e também, sem dúvida, muitas concepções diferentes.
Como propiciar o diálogo em tão pouco tempo (uma tarde) ?
Começamos, então, com uma pergunta bem simples para clarearmos nosso caminho
e, juntos, decidirmos a direção que iríamos seguir: “porque eu escolhi o tema
Educação, Meio Ambiente e Cidadania?” O que cada um veio buscar neste debate? Sintetizamos em uma
frase ou pergunta nossas respostas e discutimos em duplas e progressivamente
em grupos maiores, tentando encontrar consensos e/ou discordâncias.
A discussão dos pequenos grupos, bem como a que foi compartilhada em uma
grande roda foi bastante rica e se concentrou bastante na questão do “como”.
Como conseguir essa educação que aproxime o ser humano do meio ambiente? Como
trazermos a questão ambiental para perto da vida das pessoas e não desconsiderarmos
a realidade social? E, dentro dessa temática, perpassaram questões profundas,
como: considerar as pessoas de forma integral, para haver um envolvimento
pessoal - trabalhando inclusive com a sensibilização. Esse termo – sensibilização
- pode ser interpretado de uma forma superficial, quando nos esquecemos que
estamos lidando com pessoas e que para sensibilizá-las precisamos antes de
estarmos nós (que desenvolvemos trabalhos educacionais) sensibilizados. Como
despertar o outro se não fomos ainda despertados ? Chegamos à conclusão (?)
de que é um processo que deve acontecer de dentro para fora e que é essencial
que a subjetividade humana seja levada em conta, para não desprezarmos a complexidade
dos seres humanos e as infinitas possibilidades de crescimento subjacentes
aos processos educacionais. E levantamos a necessidade de estarmos trabalhando
com outras formas de expressão além das que usualmente priorizamos (verbal,
racional, ocidental...), como a arte, as linguagens dos sentidos.
Na conversa surgiu ainda uma questão
crucial: como agregar a abordagem subjetiva e o conhecimento (considerando
as várias formas de conhecimento – popular, acadêmico, formal, não-formal,
etc...) produzindo, a partir desta somatória, atitudes transformadoras ? E,
prosseguindo por este trajeto, nos vimos frente a um dilema relativo à Educação
Ambiental em um contexto micro
onde as transformações verdadeiras, as revisões de valores de nossa sociedade
se dão a passos bem lentos, em um trabalho paciente e
integral e em um contexto macro,
no qual a degradação do ambiente está cada vez mais acelerada, a biodiversidade
está indo para o ralo e ações urgentes são necessárias (houve na ocasião o
relato de uma participante sobre a devastação das matas no seu estado de origem
– Rondônia).
No meio de tanta loucura que está acontecendo
neste mundo, de tantas notícias que nos deixam abalados, e que de vez em quando
até nos fazem perder (momentaneamente) o fôlego, a fé, ponderamos que existem
muitos trabalhos bonitos acontecendo, muitos pontinhos isolados no mapa do
Brasil. Muitas vezes, se formos pensar no contexto global, estes pontos podem
sentir-se muito sozinhos e sem força
- “nadando contra a corrente”. O que fazer em relação a isso? Pensando
em uma oxigenação destes movimentos, para sua continuidade e crescimento,
lembramos a importância de tecer redes, isto é, encontrarmos formas de “trocar figurinhas”, a
comunicação de coisas boas, iniciativas que deram certo.... Porque só recebemos
e-mails falando de catástrofes, e nunca algum contando de um projeto, numa
escola, numa unidade de conservação, algo que motive?
Duas perguntas muito bonitas que surgiram nesta tarde podem nos remeter
a discussão, tão simplificadamente apresentada acima:
“Como
reintegrar o ser humano à teia da vida da qual faz parte?”
“Saber
como vai o mundo de cada um e o que fazer dentro deste mundo que a todos pertence?”
Ficam mais perguntas que respostas.
E que estas possam ir sendo clareadas ao longo de nossos caminhos como educadores,
como biólogos, como cidadãos, mas que nunca possam ser respondidas por completo,
pois senão seríamos privados do mistério da vida, das buscas pelas respostas
e pelo aprendizado.
Ao final,
para termos certeza de que havia algo especial acontecendo, alguém espontaneamente
puxou uma meditação sobre o mundo, a natureza e os seres humanos. As pessoas
permaneceram na sala conversando, desenhando, ouvindo música...
Para terminar, agradecemos de coração à presença da Rio, Maria Rita Avanzi,
educadora ambiental e amiga, que participou da nossa conversa.
O Grupo de Discussão sobre desenvolvimento sustentável funcionou como um
início de reflexão para as demais atividades do encontro. Foram convidados
dois professores da Unicamp, não biólogos, que trabalham com temas relacionados
à sustentabilidade: Celso Lopes, da Engenharia de Alimentos e do Núcleo de
Estudos e Pesquisas Ambientais e Rachel Negrão, do Instituto de Geociências
e que atua na área de Economia Ecológica.
De início, o grupo assistiu a uma entrevista gravada do geógrafo Milton
Santos, falando principalmente sobre as armadilhas do discurso da globalização.
Depois, sentamos todos sob a lona do encontro e começamos a discussão a partir
do vídeo. Poucos conheciam o trabalho de Milton Santos, e poucos tinham uma
formulação clara do que vinha a ser “desenvolvimento sustentável”. Situação
rara em encontros de estudantes, as pessoas pareciam à vontade para falar
e ouvir. Foram levantadas críticas ao consumismo, discutiu-se sobre a diferença
entre comunicação e informação; falamos sobre o aparente paradoxo existente
entre realizar ações locais e perder a noção do contexto geral ou pensar nas
grandes questões nacionais e desprezar as pequenas mudanças; discutimos a
palestra do professor Roberto Romano sobre a universidade pública, ocorrida
no dia anterior; falamos sobre alguns dos temas colocados no painel. Rachel
falou um pouco sobre o termo desenvolvimento sustentável; discutimos os diversos
significados que o termo pode adquirir, dependendo de quem o usa. Para alguns,
deu para repensar idéias já mastigadas, pensamentos e experiências vividas;
para muitos, foram novidades abstratas bem vindas, talvez tornadas mais concretas
no decorrer do ENEB.
Por menos “deliberativo” que o
grupo de discussão tenha se tornado, foi importantíssimo como um momento de
reflexão coletiva. Com certeza abriu horizontes para que cada participante,
indo para sua vivência, indo sua universidade, para seu mundo, pudesse compartilhar
e pôr em prática, de sua maneira, o que viveu no ENEB. Acabamos não tendo
“pernas” para elaborar o painel com as discussões do dia, como outros grupos
fizeram. Paciência. E ainda era cedo para conclusões.
Infelizmente em poucos momentos
da nossa formação podemos discutir sobre o "fazer científico" e
isso custa muito para o nosso crescimento enquanto profissionais e cidadãos.
Se não discutimos sobre este nosso processo de trabalho, limitações, ideologias
e imaginários introjetados, como podemos refletir sobre a nossa atuação na
sociedade? Neste sentido iniciamos o nosso grupo de discussão com fotos, trechos
de filmes, imagens... o imaginário que a ciência criou e cria sobre si mesma
e aqueles vinculados por filmes, revistas, pela mídia em geral sobre ela e
seu papel na sociedade. A partir daí buscamos em pequenos grupos discutir
o papel da universidade e dos estudantes universitários na sociedade. Dar
respostas aos problemas da sociedade por meio do nosso saber acumulado? Dialogar,
trocar... buscar uma reconstrução do saber a partir da prática? Qual é o limite
entre colocar seu ponto de vista e impô-lo em um trabalho social? Partimos
assim para uma discussão sobre a educação e a ciência. Entender a ciência
como uma construção social como possibilidade de perceber que existem outros
conhecimentos, também construídos socialmente, válidos e legítimos. Saber
lidar com estes diferentes saberes é uma busca difícil que nos leva a rever
todo uma forma de pensamento que foi construída, dentro da qual fomos educados
em nossos 15 (ou mais) anos de escolarização.
Um tema ligava ao outro e
a sensação de que a mudança deve acontecer em diferentes espaços da sociedade,
inclusive na universidade. Como mudar? No final uma reflexão sobre como cada
um via a discussão em seu universo de convivência, em sua universidade...
como buscar novos caminhos? Poucas certezas, mas muita vontade de traçar novos
rumos.
Boaventura Sousa Santos,
um sociólogo português nos aponta direções: "Está surgindo uma outra
visão sobre as ciências, cujos principais traços seriam derivados da aceitação
como verdadeira a tese de que há muitas formas válidas de conhecimento, de
onde se seguem como decorrência, atitudes que venham valorizar os conhecimentos
e práticas não hegemônicas (...). Isto implica a escuta de práticas marginais,
desvelando-se rastros de utopias silenciadas, para fundamentar a busca de
soluções aos problemas da sociedade contemporânea" (em "Introdução
a uma ciência pós-moderna").
Agradecemos a participação do Antônio
Carlos Amorin, Daniel Tygel e Paulo Inácio pela força como "enriquecedores"
desta rica discussão.
Devido ao número reduzido de participantes,
no caso três pessoas, consideramos de pouco significado descrever tal experiência.
Temas
específicos
Pensamos que os temas escolhidos
para os grupos de discussão não dariam conta de todas as vontades e interesses
vindos nas cabeças participantes. A lista de e-mails da biologia tem como uma de suas funções ser um
berço de idéias e debates para serem
levados ao ENEB, sendo um processo participativo de definição de temas relevantes
para os estudantes de Biologia do Brasil (pelo menos os que têm acesso à Internet...).
Porém o ENEB é um espaço democrático de criação e, por isso, imaginamos que
surgiriam outros temas naturalmente, conforme a necessidade, para uma discussão
mais aprofundada. Pois bem, reservamos uma tarde para acontecerem essas discussões
e os temas que surgiram foram:
Esse tema específico foi organizado com o objetivo de se discutir a problemática
atual da excessiva produção de lixo, e a imediatista solução por reciclagem.
Esperávamos, ainda, um debate com troca de experiências sobre projetos de
manejo do lixo que estivessem acontecendo nas Universidades, resultando em
propostas práticas para a solução deste problema.
Contamos com a participação de
dois pesquisadores do CATI – Campinas, que contaram suas experiências com
coleta seletiva, fornecendo dados técnicos importantes para a gestão do lixo.
Entretanto, como poucas pessoas do grupo tinham alguma experiência com o tema,
a discussão foi bem superficial e muitos pontos importantes, principalmente
sobre conscientização, não foram abordados.
Tentamos alertar as pessoas para o lixo de diversas formas. No gramado,
nosso centro de convívio, ao lado da grande lona, havia uma construção com
paredes e telhas de material reciclado; o nome dela era Casa do Lixo e, ao
entrarmos nela, poderíamos encontrar muitas mudas adubadas com composto orgânico,
uma composteira e informações sobre como construí-la, obras de arte-sucata
e bastante material informativo sobre o que fazer com o lixo.
Além disso, tentamos reduzir
ao máximo a produção de lixo no encontro, através da utilização de canecas
em substituição aos copos plásticos, da venda de bebidas em garrafas de vidro,
do uso de papel rascunho, papel reciclado e papel não-clorado em todas as
atividades, etc...
A tentativa de separação do lixo
nos alojamentos e nas festas não deu certo, pois o lixo sempre estava misturado.
Acreditamos que esse é um problema que deve ser continuamente discutido, para
que sejam propostas formas de atuação mais efetivas.
O que caracteriza a Educação
Alternativa? A filosofia da Educação? O método? O espaço? As pessoas? O material?
O que não é conservador/convencional? É educar em uma comunidade alternativa?
Estas foram algumas das preocupações da discussão, a definição do termo “alternativo”,
usado indiscriminadamente em diversos discursos. A troca de experiências foi
bastante rica. Havia principalmente pessoas com prática em educação de adultos.
As
Oficinas
Pensamos as oficinas do ENEB com o objetivo de possibilitar
um momento de integração dos participantes e de desenvolvimento de outras
formas de expressão, como as corporais e artísticas, que não as tradicionalmente
utilizadas no âmbito acadêmico. Nelas nos permitimos dançar, escrever poesias,
plantar, jogar capoeira, ser palhaço, nos massagear, relaxar...
Deixamos
aberta também a possibilidade dos participantes do encontro estarem oferecendo
oficinas. Consideramos isso como uma das forma de se permitir um clima de
co-responsabilidade e troca no encontro. O convite foi feito nos informativos
e na ficha de inscrição e a confirmação com um mês de antecedência. Dois participantes
ofereceram oficinas.
As oficinas ocorreram durante duas manhãs seguidas
(15 e 16 de dezembro). Inicialmente planejamos um total de 20 oficinas, mas
com o baixo número de inscrições muitas foram canceladas, sendo que apenas
9 delas ocorreram (todos as pessoas que se dispuseram a oferecer as oficinas
não cobraram), são elas:
1. Imagens Dançantes:
estimular a descoberta e expressão do conhecimento que somos/temos e que pode
tornar-se dança.
2. Capoeira Angola:
introdução à história, mandinga e movimentos da capoeira angola.
3. Corpo, Plantas e Poesia:
Plantio de flores, criação de poesias e a expressão corporal, usando as plantas
para despertara poesia do corpo e da palavra. Desta oficina resultou um livro
de poesias.
4. Danças Populares do Maranhão:
a partir da experimentação da linguagem das danças populares e da consciência
corporal, Ter uma reflexão sobre o lugar do corpo e dos movimentos no cotidiano
de cada uma.
5. Teia Tribo Karutana:
através de elementos de artes plásticas no figurino, da música popular brasileira
nos ritmos e pela encenação de arquétipos a cena é construída. A oficina visa
teiar universos particulares na comunicação coletiva.
6. Palhaço:
exercícios cênicos objetivando o desenvolvimento de aspectos lúdicos do ser,
buscar a criança dentro de si.
7. Digitopuntura aromática:
filosofia e técnicas de manipulação dos meridianos usando aromaterapia.
8. Massagens Orientais:
reflexologia, massagens orientais e técnica de relaxamento.
9. Análise do Conhecimento de Biologia em
sites: análise e discussão dos sites com conteúdos relacionados
à biologia.
O CORAÇÃO
Como integrantes do meio acadêmico temos uma certa mania
de falar muito e fazer bem pouco, ter mil e uma idéias, mas não colocá-las
em prática. Então, trazendo a idéia de nossos amigos gaúchos de existirem
os que foram chamados por eles de grupos específicos e por nós (da Unicamp)
de vivências , as saídas de campo, que apostaram na sensibilização provocada
pelo “ver acontecendo”. O coração do ENEB bateu tão forte!!!!!!!!
Nas vivências sentimos tudo
que vínhamos pensando, discutindo, nos questionando, com nossos olfatos (cheiro
de terra, de comida gostosa, de criança...), nosso toque (na enxada, na panela,
quantos abraços....), nossa visão, nossa
audição (tambores tocando, água correndo...). Enfim, deu tudo certo! Voltamos
todos com um brilho bonito nos olhos, um brilho de motivação, de ver que é
possível fazer muita coisa com o conhecimento.
Segue abaixo um resumo contando
um pouco de como foi cada vivência. Mas como já escreveu João Cabral de Melo
Neto:
“É difícil defender só com palavras a vida”
Vivência de Mogi Guaçu – Políticas Públicas
em Educação Ambiental
Fomos em um grupo de mais ou menos 20
pessoas, em um ônibus cedido pela Prefeitura de Mogi Guaçu. Depois de uma
recepção calorosa no alojamento, começamos nossa jornada pela cidade. Conversamos
um pouco sobre nossos anseios e expectativas nessa Vivência...não estávamos
ali para julgar ou subestimar as iniciativas de âmbito ambiental da Prefeitura
da cidade, mas para conhecermos um pouco mais como essas iniciativas funcionam
na prática e analisarmos quais seriam as formas de atuação do biólogo.
Conhecemos uma usina de triagem de
lixo, o aterro sanitário da cidade, uma ONG que trabalha com compostagem e
a Faculdade de Engenharia Ambiental recém inaugurada, entre outras coisas.
Além disso, conhecemos e discutimos o trabalho que vem sendo desenvolvido
nas escolas.
Em um trabalho conjunto
da Secretaria de Educação e da Secretaria do Meio-Ambiente, estão sendo desenvolvidos
projetos de Educação Ambiental, nos quais estão envolvidos professores e alunos
da rede municipal de ensino e a comunidade em geral. O principal objetivo
desses projetos é a conscientização e o envolvimento da população com relação
a questões ambientais, tais como a problemática da produção e destino (coleta
seletiva) do lixo, a arborização da cidade, conservação e recuperação de áreas de mata
ciliar. Para tanto, o trabalho tem sido centrado nas escolas, na tentativa
de tornar os alunos agentes atuantes
nesses processos.
Depois de conhecermos
um pouco da realidade local, discutimos e analisamos criticamente tudo o que
havíamos visto. Foi uma discussão muito rica, uma vez que cada um pôde conhecer
um pouco mais da realidade de várias regiões do Brasil, quais e como têm sido
aplicadas as iniciativas governamentais em relação ao meio-ambiente e como
o biólogo tem atuado (ou não) nessas frentes. Percebemos que nossa formação
e modelamento estritamente acadêmicos não têm “permitido” uma participação
mais efetiva nas políticas públicas; e,
por fim, tentamos encontrar respostas para o que fazer com nosso conhecimento.
Reflorestar
(Parque Ecológico/ Faz. Santa Mônica)
Estivemos nestes dois dias, parte no Parque Ecológico "Mon Senhor
Salim" em Campinas, local da "Ocupação Verde" (plantio de mudas)
no dia 20, e parte na Fazenda Santa Mônica em Joaquim Egídio, de onde provêem
parte das mudas deste plantio. Nestes dois locais existem experiências de
recomposição da mata nativa da região: o primeiro de iniciativa do poder público
e o outro particular, tendo este áreas recompostas há mais de 40 anos por
iniciativa de uma pessoa, o Sr. Smith.
Esta vivência pretendia proporcionar o diálogo e a troca de experiências
dos estudantes com as pessoas que vêm trabalhando com reflorestamentos nestes
locais e que isto pudesse contribuir para uma reflexão sobre a possibilidade
de realizações de atividades de reflorestamentos por nós, estudantes de biologia
nos diferentes locais do Brasil com os princípios de coletividade e cooperação.
E além disso, pretendíamos conhecer de perto o "Projeto Jovens Viveiristas",
desenvolvido no Parque Ecológico, com objetivo de proporcionar a jovens de
bairros carentes do entorno do Parque um conhecimento na área de jardinagem
e recuperação de matas.
Boa parte das atividades que realizamos tinha ligação com a "Ocupação
Verde": conhecimento do projeto de reflorestamento do Parque e da Fazenda
Santa Mônica, dos diferentes modelos de revegetação usados, separação e organização
das mudas a serem plantadas. Em todas estas atividades acompanhadas por quatro
dos "jovens viveiristas". Como forma de compartilhar as informações
e sensações vivenciadas para os outros participantes que estariam plantando
conosco na "Ocupação Verde" montamos um painel.
Momentos mais subjetivos também ocorreram e marcaram a vivência: entre
a luz das velas, a oficina da artista plástica Marli Wunder aconteceu durante
a madrugada. A relação entre as plantas, sementes, frutos, folhas secas, terra
e a arte. Desta oficina saiu a linda comparação entre a diversidade de formas,
texturas, cheiros de cada semente, fruto, folha e o universo interior de cada
um de nós... o respeito à diversidade. Banho de cachoeira, a fruta colhida
no pé, noite estrelada no Parque... sons, cheiros e sensações... Difícil relatar esta doce memória vivida.
Cinturão
Verde de São Paulo: Produção Convencional x Orgânica (São Roque)
A proposta inicial da vivência foi atingida com sucesso: tivemos contato
direto com pequenos e grandes agricultores da região de São Paulo, adeptos
tanto ao plantio convencional -com uso de produtos químicos-quanto ao plantio
orgânico. Hospedamo-nos no colégio da comunidade -ainda desativado, mas para
o qual os planos são um calendário escolar rural, adequado às épocas de colheita;
fizemos as refeições com produtos orgânicos e conversamos muito, o que nos
aproximou da realidade local. Tivemos também a oportunidade de conversar com
agrônomos que desenvolvem trabalho com os produtores orgânicos, ampliando
muito nossa visão técnica e científica sobre o assunto.
Sistemas
Agroflorestais-SAF (Piracicaba)
A vivência foi realizada em parceria
com um grupo formado por estudantes de agronomia e engenharia florestal
que desenvolve trabalhos com sistemas agroflorestais na ESALQ (Escola Superior
de Agricultura Luiz de Queiroz – U.S.P.) em Piracicaba , S.P.
Foi dada uma aula teórica onde foram abordados histórico, técnicas e aplicações
de S.A.F. Foi feita a implantação de um módulo experimental de S.A.F (limpeza
da área e plantio de mudas e sementes) por todos os participantes da vivência.
Foram discutidas a implantação do módulo e a aplicação, situação e perspectivas
dos trabalhos que envolvem S.A.F.
Algumas pessoas que participaram da vivência tinham experiência em S.A.F.,
outras, nunca tinham ouvido falar a respeito. A vivência foi uma situação
onde pessoas de regiões diferentes
e que atuam em áreas diferentes trocaram experiências e/ou descobriram um
elemento que faz parte de um contexto maior, que envolve desenvolvimento sustentável
e atuação social e política.
Amor
à Moradia (Moradia Estudantil)
A vivência foi levada pelas mãos da água desde o começo. Após satisfazer
a necessidade ocidental de dar nomes aos peixes, nadamos e conhecemos o potencial
do rio em que caímos. A única força que nos ajudava era a correnteza. E fomos
desembocar no hidrante (ah, mas estava um calor louco!).
Sem que ninguém esperasse, uma gota de água sem peixe pulou fora e caiu
no avião, levando parte da chuva. Assim, cada pessoa pode virar água, e se
fazer Sebastião (jardineiro e poeta), se fazer papel marchê, se fazer barro
(amassado e misturado pelos pés dos próprios peixes), se fazer forno (foi
o presente de todos para a moradia).
A mesma água então se dividiu, como é natural dos rios, e levou pra longe
o amor a moradia, e não é que era esse mesmo o nosso objetivo ?
Unidades
de conservação em Áreas Urbanas (Mata de Santa Genebra)
Essa vivência buscou o contato com os problemas, soluções e não-soluções
de uma unidade de conservação localizada dentro da área urbana de Campinas,
a Reserva Florestal de Santa GENEBra. Tivemos uma boa oportunidade para refletir
sobre o contexto real de uma unidade de conservação urbana. A reserva é o maior fragmento florestal que
sobrou em Campinas (com seus 250 hectares e as conseqüências dessa “pequenês
ilhada”) e está cercada por um entorno bastante peculiar: bairros residenciais,
uma área ocupada por famílias de baixa renda porém felizes (à beira do riacho
que nasce na reserva, que é inclusive para onde vai o seu esgoto) e alguns
campos de plantio experimental da... Monsanto!
Na primeira manhã, Rodrigo Cambará, administrador da Reserva do Lami em
Porto Alegre (pra variar), contou um pouco sobre sua experiência, que serviu
como base para nossa discussão. No período da tarde saímos de ônibus da Unicamp
para a reserva, onde continuamos a conversa e aprofundamos o contato. Quem
participou teve a oportunidade de conhecer um pouco da história da reserva,
que é bastante curiosa: os antigos donos doaram para a Prefeitura apenas a
“sombra da mata”. Isso quer dizer que se não houver mais sombra (e árvores),
a terra deixa de ser da Prefeitura. Demos
também uma volta pelo interior da reserva, observando em conjunto e discutindo
o que era visto: efeito de borda, macaco comendo pão francês, patrocínio da
Petrobrás, borboletário, educação ambiental, transgênicos...
No segundo dia nos concentramos na parte externa da reserva, o que foi
uma atividade muito enriquecedora. Foram formados alguns subgrupos, que trabalharam
com entrevistas tanto num bairro residencial de classe média como na ocupação
existentes no entorno. Durante os relatos: filhos com fome, lágrimas, gosto
pela natureza, aves em gaiolas, aula sobre solos, herbicidas, preconceito...
Descobrimos que as pessoas que moravam ao lado da mata, na ocupação, eram
felizes por poder estar ali, mesmo que o bairro não tivesse saneamento básico
ou coleta de lixo regular. E que as pessoas que moravam um pouco mais acima,
no bairro residencial, também eram felizes por acordarem olhando para o verde,
mas não gostavam nada da presença eventual dos filhos de “pessoas pobres”
no campo de futebol frequentado pelos seus filhos (na aplicação derradeira
do conceito consagrado do é meu). Quanto às atividades do pessoal da reserva
junto aos moradores: “de vez em quando eles dão uns panfletos falando para
não fazer fogueira”, “uma vez teve um curso para as crianças”. Quanto aos
pesquisadores da Unicamp, uma opinião de consenso se formou: dentro, a pesquisa
acadêmica vai andando... mas as responsabilidades – uma vergonha (basta lembrar
que a Universidade conduz pesquisa na reserva há três décadas e até hoje não
existe plano de manejo efetivo).
As pessoas ainda se reuniram
numa terceira manhã, pintando um painel-síntese do trabalho. No final o documento
feito para a administração da reserva mandou um recado: vamos lembrar que
a saúde da mata depende (e muito) da população do entorno... e cuidado com
a Monsanto!
Despertar
par a terra- uma associação entre universidade e o campo (Sumaré) + Barulho
na Periferia (C. C. Tainã)
Acho que talvez um ditado que se ajusta a esta vivência é aquele “há males
que vêm para o bem”. Esta foi a vivência três em um. Juntamos uma vivência
que não aconteceu com duas outras que tiveram um número reduzido de inscritos
e montamos uma quarto a vivência que mesclou atividades das duas últimas,
assentamento/MST de Sumaré com Casa de Cultura Tainã.
Conhecemos primeiramente uma fortaleza na periferia de Campinas: a Casa
de Cultura Tainã (caminho das estrelas). A C.C. juntamente com outras iniciativas
do bairro (PROGEN – Projeto Gente Nova) resistem bravamente nas trincheiras
das ruas. Agregam crianças e adolescentes e resgatam nelas, através da arte
(principalmente percussão e dança) a cidadania e a auto-estima. Montada em
um vestiário desativado de um clube de trabalhadores, destaca-se como um importante
centro de integração do bairro. Ali, participam projetos de terceira idade
e de deficientes mentais/físicos. Compartilhamos da história da Casa, das
dificuldades em manter-se fisicamente, legalmente e financeiramente. Dançamos,
batucamos. Ao fim do dia, fomos presenteados com um colorido e musical pôr-do-sol
em um refúgio da cidade grande. Fica uma grande admiração e respeito a estes
guerreiros do “Caminho das Estrelas” que fazem da batalha uma tremenda batucada.
Dali partimos rumo ao assentamento rural do Movimento dos Sem Terra de
Sumaré. O assentamento é um dos mais antigos do Estado de São Paulo. A principal
atividade é a fruticultura. As famílias não estão organizadas em cooperativas,
a produção é individual. O vínculo destas famílias com o MST é reduzido. Existem
duas pequenas escolas construídas, mas não há professores. Fomos muito bem
recepcionados com um forró e uma fogueira. No dia seguinte, fomos andar pelo
assentamento. Distribuídos em duplas, tivemos a oportunidade de vivenciar
a rotina de uma família do assentamento e mais tarde participamos de um plantio
de mudas nativas. Conhecemos ainda o coletivo de mulheres bastante forte na
comunidade que procura discutir temas pertinentes às mulheres como saúde da
mulher, planejamento familiar, direito e respeito e, mais recentemente, o
grupo estava se organizando na produção de ervas medicinais. Fechamos o dia
mais uma vez homenageando o sol em uma grande roda e uma canção indígena.
De mãos dadas deixamos o assentamento.
OS MEMBROS
Como já foi dito
anteriormente, propusemos este momento no encontro para instigar os participantes
a fazer, realizar, concretizar, mexer-se. Com o que vimos, pensamos, conversamos nos
outros dias do ENEB, o que podemos fazer em nossas casas, Universidades, Estados???
Foi uma forma que pensamos de definirmos, ou pelo menos esboçarmos, alguns
caminhos, saírmos do ENEB levando algo palpável... É lógico que seriam idéias
iniciais, o ENEB é parte de um processo e não um desfecho dele. Entendemos
que cada um possui um tempo próprio para digerir as experiências pelas quais
passou, relacioná-las com sua própria vida e vislumbrar rumos. Outro lado
seria o fazer prático durante o próprio ENEB, como foi a Ocupação Verde e
a sonhada mas não alcançada Ocupação Cultural.
Ocupação
cultural
Nosso objetivo com esta atividade era expandir a idéia da ocupação verde
de uma atuação dos estudantes fora da universidade. Afinal, a densidade e
diversidade cultural de um ENEB é algo a ser considerado e, sempre que possível,
aproveitado. Debaixo da lona que montamos aconteceu muita coisa, e nada mais
coerente com os princípios e objetivos do que “transportar este espaço” para
fora da universidade, buscando influenciar e ser influenciado por algum outro
espaço cultural, como uma praça, uma feira de artesanato, como ocorreu no
domingo em que seria a Ocupação.
Seria o momento de apresentarmos ou contarmos coisas que foram desenvolvidas
nas oficinas, talvez vivências, tocar música (isso já estava garantido pelo
pessoal do Zé Arão, lá do Casarão de Porto Alegre, e agregados naturais).
Poderíamos ter feito uma ciranda, ou mesmo um almoço que envolvesse as pessoas
que estivessem ali na praça.
Ocupação
Verde
Para a finalização do encontro, no dia 20 de dezembro de 1999, fizemos
o plantio em mutirão de mudas em uma área do Parque Ecológico Monsenhor Emílio
José Salim - Campinas. Esta atividade prática, além de conter o enfoque ambiental,
visou também envolver os participantes com a realidade regional e despertar
o sentimento de ação coletiva e cooperativa.
A dinâmica do mutirão
de plantio foi muito melhor que esperávamos, foram poucos os momentos em que
a organização teve que dizer o que deveria ser feito (no início principalmente).
As pessoas foram se organizando expontâneamente e cada uma foi trabalhando
segundo seu ritmo e sua motivação. Foi uma vivência concreta de toda uma discussão
de 10 dias de encontro... e talvez uma para as infinitas respostas a nossa
pergunta inicial "O que fazer com o conhecimento?"
Mas
este foi apenas o começo de uma história...
Um projeto de reflorestamento não se finaliza no plantio é necessário um
acompanhamento de pelo menos dois
anos até que as mudas se restabeleçam, já no início da organização da ocupação
verde decidimos que "adotaríamos"
a área. Assim no dia 24 de fevereiro de 2000 realizamos um segundo plantio com participação de cerca de 80 pessoas, como
parte da programação da recepção aos calouros de ciências biológicas (unicamp).
Plantamos cerca de 40 mudas de 10 espécies diferentes das utilizadas na ocupação
verde, a fim de enriquecer a área, utilizando o mesmo modelo de plantio. Além disso, foi feito o
coroamento de todas as mudas plantadas no xx ENEB, a substituição dos indivíduos
mortos e o estaqueamento de todas as mudas já plantadas.
Agenda
Local
Segundo o “caderninho do XX ENEB”, capítulo IV, versículo III: “a Agenda
Local é um momento reservado para que cada Escola possa elaborar planos, ações
a partir de tudo que foi discutido, visto e vivenciado durante o XX
ENEB. Ou mesmo conversar sobre vontades, sonhos despertados ou aumentados
nesses dias que passaram. Aí no ENEB do ano 2000 a gente se encontra para
conversar sobre o que rolou, o que não deu certo e o que ainda está por acontecer...”
Essa foi uma atividade oficial do XX ENEB, contudo na Conversa Final (equivalente
ecológico da Plenária Final) os estudantes que aqui estavam decidiram por
levar essa idéia para as Universidades / Escolas e continuar a discussão lá,
pois o número de pessoas por instituição era muito pequeno e as atividades
deveriam se coletivas e envolver o maior número de pessoas possível, como
colocado na proposta do ENEB. Poderia ter sido interessante escrever até mesmo
essa proposta e formas de como se chegar a concretizá-las para não perdê-las
durante as férias (que se seguiram ao ENEB).
Achamos que teria sido essencial ter acontecido essa atividade, mas
nem nos meses que se seguiram esse assunto apareceu na lista. Esperamos que
neste próximo ENEB ela possa ser incorporada de fato à programação, mas é
preciso pensar em meios para que isso possa ser efetivado...
Podemos falar um pouco de nós daqui da Unicamp... Saímos do ENEB com muita
vontade de montar coletivamente um viveiro de mudas. Até pensamos em utilizar
a estrutura da “casa do lixo” para isso, mas obviamente ordens superioras
não permitiram. Atualmente o viveiro existe, na própria Unicamp (um cantinho
cedido dentro do viveiro do Instituto de Biologia), as mudas estão lindas
e, provavelmente em agosto já poderão ser plantadas em outra Ocupação Verde.
Assembléia
Nacional dos Estudantes de Biologia
A Assembléia Nacional dos Estudantes de Biologia aconteceu em uma roda
embaixo da grande lona. Estivemos reunidos e lemos a Carta de Campinas, um
documento elaborado durante a vivência “Unidades de Conservação em Áreas Urbanas-
a Mata de Santa GENEBra” e aprovado pela plenária final como posicionamento
dos estudantes de bióloga em relação à alteração proposta pelos ruralistas
no Código Florestal Brasileiro. Este documento foi enviado ao CONAMA (veja
em anexo). Outro assunto superficialmente abordado foi o Estatuto. Concordamos
que o Estatuto merecia mais tempo de discussão e aprofundamento e aquele não
era o momento adequado. Preferimos por destrinchá-lo no CONEBIO seguinte.
A nossa idéia é que tivéssemos utilizado o espaço de discussão de Temas Específicos
para suprir este assunto, porém não houve demanda nem dos organizadores muito
menos dos participantes.
Ainda na Assembléia decidimos a sede do CONEBIO 2000 em Florianópolis (UFSC)
e para o ENEB 2000, os futuros sediadores (UFC) se apresentaram com um repente:
“Eu venho das dunas brancas
d’onde eu queria avisar
que o ENEB do ano 2000
vai ser no Ceará”
CONVERSA FINAL DO XX ENEB
Para quem não sabe, esse
foi um nome mais informal que demos à Plenária Final...
Em um exercício de interpretação
posterior de um manuscrito feito à empolgação do momento, vamos nos remeter
à última noite do ENEB (20/12/1999)...
§
Avaliação
da Ocupação Verde - os participantes elogiaram a boa infra-estrutura em
que foi realizado o plantio.
§
Agenda
Local – este seria o momento de apresentarmos o que os participantes
elaboraram para quando voltassem a seus locais de origem. Porém, decidiram
por elaborar essas propostas em suas próprias Universidades devido ao pequeno
número de representantes destas presentes no ENEB. Levantou-se também a importância
de que isso acontecesse para que as propostas colocadas durante o Encontro
acontecessem de fato. Foi ressaltada a relevância da agenda local para que
redes entre iniciativas isoladas fossem tecidas.
§
Considerações
sobre a lista de discussões na internet – falou-se que poderia
ter acontecido discussões mais fluentes e aprofundadas, por este ser um espaço
livre de expressão de opiniões.
§
Discussão
sobre o tema “O que fazer com o conhecimento?” – nesse
momento entramos em uma discussão sobre o papel da Universidade, de nós - biólogos - e sobre como mais pessoas podem
incorporar esse movimento. Entramos em um debate filosófico sobre “formas
alternativas” de se dizer e fazer as coisas, que foram bastante enfatizadas
e executadas neste ENEB, como dinâmicas, menos atividades expositivas. Pois,
lembramos que esse “despertar do outro que está adormecido”deve ser feito
de uma forma mais suave e menos como um choque, como estamos acostumados a
ver no Movimento Estudantil. As intervenções
previstas durante o andamento do Encontro foram consideradas um ingrediente
essencial para o que acreditamos que seja um ENEB e o que deva tornar-se o
movimento estudantil. Neste momento o Seu Sebastião lembrou do forno que foi
construído na moradia e da Ocupação Verde como uma resposta a nossa pergunta-tema.
§
Avaliação
da dinâmica do encontro – falou-se que a forma do corpograma foi
sentida ao longo do ENEB, que a cabeça, o corpo e os membros existiram realmente
na forma em que as atividades foram sendo desenvolvidas. E também que a “organicidade”
proposta para o Encontro revela a visão não mecanicista do tema.
§
Relato
das nossas experiências com a organização do XX ENEB – contamos
rapidamente um pouco do processo pelo qual passamos e nossa visão sobre ele
no momento. Também relatamos como foi a cooperação entre o pessoal da UFRGS
que organizou o ENEB anterior e nós da UNICAMP para a organização do XX ENEB.
Lista
de E-mails
No ENEB de Porto Alegre, assistimos uma palestra intitulada “Pensando contra
a corrente”, onde debatemos a globalização através dos meios de comunicação
e a fabricação de consensos artificiais. No final das contas, chegamos aos
3 pontos básicos que permite a crítica à grande mídia: tempo para parar e
pensar sobre o assunto, conhecimento das técnicas de sugestão e convencimento
utilizado sobre nós, e a existência de uma mídia alternativa.
Ficamos com isso na cabeça, e logo relacionamos às listas de discussão
e e-mails, instrumento a partir do qual você pode mandar mensagens para quantas
pessoas quiser em qualquer lugar da Terra, com apenas uma clicada no mouse.
Um milagre da tecnologia, é verdade, mas que não necessariamente contribuirá
para a atenuação das atuais injustiças sociais e ambientais. Além disto, a
lista é uma coisa restrita a quem tem educação, computador e internet.
A primeira parte é tranquila para um espaço de estudantes (no sentido amplo).
A informatização já não é tão democrática, e diversas universidades, embora
isto seja absurdo, não dão sequer permissão para o centro acadêmico utilizar
os computadores com conexão para a rede. Taí mais um objetivo pelo qual lutarmos,
durante os ENEBs e durante as nossas vidas cotidianas nos institutos. Afinal,
a rede está aí, e se nós não a preenchermos, as empresas, o governo e principalmente
os americanos a preencherão.
Bom, nós propusemos a criação desta lista na plenária final do XIX ENEB,
e lá foi ela. Durante este ano e pouco, muita coisa se passou pela lista.
Teve momentos em que nada se dizia de interessante, em que não tínhamos tempo
de ler, mas sempre havia uma informaçãozinha curiosa, importante, revoltante,
aliviante. Muitas mensagens de cólera, pedidos de extinção da raça humana,
perdões, cartas dando força para o movimento, fosse qual fosse e onde fosse.
Tínhamos um ideal da lista como sendo a ligação entre os ENEBs, amadurecendo
as discussões e tomando decisões coletivas, ou mesmo sendo apenas um canal
de troca fácil de informação entre pessoas com interesses comuns. Acreditamos
que estamos mais próximos dele, mas ainda há muito o que fazer. Muito o que
escrever nela e o que for necessário para podermos todos escrever nela.
CONCLUINDO PARA NÃO CONCLUIR
(Fernando Pessoa)
“De tudo ficaram três coisas:
a certeza de que estava sempre começando,
a certeza de que era preciso continuar
e a certeza de que seria interrompido
antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo,
fazer da queda um passo de dança
do medo, uma escada
do sonho, uma ponte
da procura, um encontro”
É
povo! Está em cima da hora do XXI ENEB começar, mas conseguimos terminar a
lenda do relatório... Nem nós mesmos acreditamos nisso! E pra que essa correria
toda se o ENEB já está em ponto de bala para começar ??? Em primeiro lugar,
vemos tanto esse relatório como o que foi feito pela galera de Porto Alegre
no ano passado como um ótimo ponto de partida para o começo das discussões
que vão rolar em Fortaleza. Talvez essa seja uma das formas para que as discussões
em encontros estudantis não se assemelhassem à “colcha de Penélope”, que toda
noite é desfeita para recomeçar no dia seguinte novamente... Lógico, que serão
pessoas diferentes em um contexto diferente, mas está aqui um pouco dos caminhos
e descaminhos trilhados pelos estudantes de Biologia. Para ser fonte de inspirações
mas também de críticas!
Desde
Porto Alegre (1998) vêm se processando grandes mudanças na concepção do que
seja um ENEB... Achamos que uma pergunta básica que traduz essas transformações
é: qual a diferença entre propor algo e se propor a algo? A que nos propusemos,
cada um, nessa aventura conjunta que é o ENEB? Seria bem mais fácil encontrarmos
uma porção de palestrantes e alguns mini-cursos atrativos para as pessoas
chegarem, assistirem e depois irem se divertir na festa... Mas não foi bem
assim, nos propusemos a uma empreitada um pouco mais arriscada que foi esse papo de “construir junto”, “coletividade”
- expressões tão batidas nos informativos e conversas durante o ENEB. Para
que isso acontecesse todos que viessem ao ENEB (inclusive os biólogos que
vos falam) deveriam vir de peito aberto, para não ficar parado recebendo como
estamos acostumados (e se não gostamos, reclamamos com a organização)... Ao
contrário, nossa intenção era que todo mundo botasse a mão na massa e fizesse
junto o que quer que o ENEB viesse a ser!
Bom,
ao longo do relatório vocês devem ter notado que na prática não é tão bonitinho
como na ideologia. Somos filhos de um sistema que estimula uma postura individualista como forma mais adequada de
se viver em sociedade... No movimento ENEBiano a proposta é diferente do que
estamos usualmente acostumados, e por isso não é fácil. Estamos engatinhando
em direção a isto. Nosso coletivo não é, está começando a ser. Temos bastante
que aprender...
Concretamente,
temos alguns aprendizados a dividir... Muitas coisas que dependiam da iniciativa
de todos participantes não aconteceram! Por exemplo, a discussão sobre o estatuto,
a ocupação cultural, a agenda local, os fabulosos atrasos à maioria das atividades...
São coisas que precisam ser pensadas com mais carinho, para que aconteçam
sem um ranço autoritário, pois são atividades imbuídas do espírito de “fazer
junto”. A agenda local é uma das nossas frustaçõezinhas, pois era mais uma
forma efetiva de nos propormos a algo, fruto do movimento estudantil da Biologia.
Torcemos para que em Fortaleza aconteça! Mas não podemos dar as respostas... Mas não queremos dizer com isso que o ENEB
não foi coletivo! Ao longo do Encontro, fomos sentindo crescendo a participação
dos biólogos “de fora” no vender cerveja, carregar equipamento de som... É
um processo ainda no princípio! Quem sabe as brigadas de ação propostas pelo
povo do Ceará não é um passo?
Estiveram
por aqui no XX ENEB exatamente (nós confiamos na nossa Secretaria) 107 pessoas,
contando conosco “Movimento Coletivo dos Neurônios em Ação”. Esperávamos bem
mais! Mas não vamos ficar tentando agora enumerar todos os motivos para esse
baixo número, só que algumas perguntas não querem silenciar: “somos herméticos?”,
“estamos abertos para discursos diferentes dos nossos?”, “somos uma seita?”,
“porque mais gente não se interessou em participar do ENEB?”. Acreditamos
que para haver o diálogo, precisa também existir a diferença, mas será que
estamos receptivos a essas diferentes vozes? Pouquíssimos alunos da bio da
Unicamp participaram do ENEB! Tentamos pensar em maneiras de abrir espaços
para essa pluralidade que são os biólogos de todo o Brasil, alguns canais
foram a lista de discussões na internet, a existência de um espaço para discussão
de temas que surgissem nos ENEB.
Mas
as 107 pessoas que estavam aqui fizeram um ENEB maravilhoso pela qualidade das discussões, das conversas à noite,
das manifestações culturais (banda do ENEB, 24 horas em ação!) e pela intimidade
que se criou entre todos nós! Sentados em roda, debaixo da lona de circo,
rolava uma sensação de aconchego e de troca! E mais uma coisa vale ser lembrada:
muitos não biólogos da Unicamp participaram (com agradecimentos especiais
aos artistas) e, além disso muitas pessoas de fora da Unicamp colaboraram
com o nosso Encontro – como os meninos da Casa de Cultura Tainã, Seu Sebastião
(jardineiro poeta), o pessoal do assentamento de Sumaré...
Coisas especiais aconteceram... As festas foram uma beleza,
o boteco construído com sucata, a casa do lixo cheia de mudas de plantas,
as pessoas reunidas debaixo da lona fazendo arte, a emoção provocada pelas
vivências, a descontração das oficinas... Resultados palpáveis do ENEB: o
forno construído na Moradia Estudantil, as mudas que foram plantadas, a Carta
que foi feita sobre o Código Florestal, as poesias feitas... Outras não aconteceram como havíamos planejado,
como: sínteses do que aconteceu no dia na forma de painel, os temas discutidos
não permearam tanto o encontro... Mas agradecemos à toda imprevisibilidade
da vida, pois o ENEB se fez e nós o vivemos!
Agora
a lona de circo que decolou de Porto Alegre, aterrisou em Campinas, está levantando
vôo para Fortaleza! E que leve todas emoções, reflexões e possibilidades que
aconteceram debaixo dela para o próximo ENEB e que muitas coisas aconteçam!
EPÍLOGO
Nós.
Cada um. Seres inundados de amor à vivacidade do mundo e curiosos a respeito
de tudo. Amigos. Povo simples. Estudantes da bio. Solo sagrado para nós este
do encontro de idéias e reflexão de saberes. Unicamp. Graduação. Época de
busca, conflitos e união. Introspecção que busca tornar-se ação. Processo
de tornar-se coerente. ENEB em Porto Alegre, setembro de 1999. Vontade imensa
de atuar com responsabilidade social. Ser cidadão integral. Saber-se vivo
e parte integrante do todo... Tudo que é humano não me é alheio. Nós somos
um com a sagrada Terra, para sempre, para sempre, para sempre... O coletivo.
Quem somos neste mundo conturbado? Quais prática nos aproximam ou nos afastam
de uma vida mais digna e coerente? Estamos conscientes do nosso papel? Ruptura
de paradigmas. Reavaliação do nosso dia-a-dia. Será que nós estamos sendo
semente da mudança que queremos ver prosperar? Vontade de mudar, de conhecer
movimentos alternativos e experiências concretas de atuação. Fazer parte ativa
do processo e trabalhar para o equilíbrio humano e mundial. Aprender mais
coisas e cultivar a reflexão crítica. Cultivar... Ficamos com "formiguinhas"
de trazer o ENEB para cá e assim se fez. XX ENEB-Campinas/SP. Trabalho. Busca.
Aprendizado. Movimento Coletivo dos Neurônios em Ação. Sonhos e muitos sonhos.
Paixões, fantasia até. Troca de inexperiências e experiências, movimento conjunto
no sentido de (re)experimentá-las. Busca coletiva de um conhecimento mais
humano que leve em consideração as diferentes interpretações da realidade.
Busca e muito trabalho. Olhos e corações atentos. Expectativas... Mas...um
grupo fechado? Dificuldade de comunicação no nosso próprio nicho. Dificuldade
de dissimular o preconceito mútuo e realmente trocar com os diferentes. E
assim, pouquíssimos estudantes da bio-Unicamp, além de nós 30 da organização,
participaram do encontro. Tristeza. Inquietação. Vontade de contemplar e ser
contemplado pelo outro com olhos abertos e mais puros. Vontade de reconciliar.
Vontade de reinventar as relações humanas, tendo por base a unidade na diversidade,
o verso uno, o diálogo, a troca e o respeito. Afinal, do que vale a nossa
arte, a nossa ética e a nossa estética, se não conseguirmos vislumbrar o outro,
tocá-lo, amá-lo, crescendo junto? De que adianta ter milhares de idéias boas
se não somos capazes de ouvir o outro, se ficamos ensimesmados e tolhidos
de conhecer o diverso? Assim, dificilmente alcançaremos uma interpretação
mais confortante do que é o real, a vida, o mundo, o humano. E o que fazer?
Trazer o ENEB para cá foi uma experiência muito forte. Ainda há muito o que
digerir. Ainda estamos abalados. Nosso silêncio, entre nós, é gritante. Chega
a doer. Raros e difíceis momentos de compartilhar as vivências que cada um
de nós teve no ENEB. Impressão de que cada um viu, viveu e sentiu um ENEB
diferente. Cada um com seu olhar, sua "janela da alma e seu espelho do
mundo"*. Chegamos ao ponto de ter que dar o passo além, do ter que crescer,
assumindo a postura de seres inacabados sempre, de seres em busca da presença
e cooperação do outro. Respeitar os diferentes ritmos e momentos. Aceitar
o eterno recomeço. É época de reorganização da nossa casa e alcançarmos a
liberdade interior para a realização do mundo exterior. É época de redescobrir
o sentido do coletivo. É época de deixarmos algo maior iluminar nossos olhos.
É época de ser.
*expressão
usada por Leonardo Da Vinci sobre o olhar .
Utopia
(Eduardo Galeano)
“Ela está no horizonte.
Me aproximo dois passos
E ela se afasta dois passos
Caminho dez passos
E o horizonte corre dez passos
Por mais que eu caminhe,
jamais a alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isto, para fazer caminhar”